Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe Comunidade Cushillo Cocha, Caballococha (Peru) - Durante três dias de intensos debates, ce...
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe |
Comunidade Cushillo Cocha, Caballococha (Peru) - Durante três dias de intensos debates, cerimônias tradicionais e construção coletiva de propostas, o povo Magüta/Pogüta realizou um dos acontecimentos mais importantes de sua história recente. Entre os dias 2 e 4 de julho de 2026, lideranças indígenas do Brasil, Peru e Colômbia reuniram-se no I Encontro Internacional Transfronteiriço Magüta/Pogüta, consolidando uma agenda comum de fortalecimento político, cultural, territorial e espiritual para um povo que existe muito antes da criação das fronteiras nacionais.
O encontro aconteceu na comunidade indígena Cushillo Cocha, localizada no município de Caballococha, região amazônica do Peru, reunindo centenas de participantes entre anciãos, lideranças tradicionais, mulheres, jovens, pajés, curandeiros, pesquisadores indígenas, representantes de organizações comunitárias e instituições parceiras dos três países. Muito além de um evento político, o encontro tornou-se um espaço de reencontro entre famílias, comunidades e territórios que compartilham uma mesma origem ancestral, fortalecendo a compreensão de que Brasil, Peru e Colômbia dividem apenas fronteiras administrativas, enquanto o território Magüta/Pogüta permanece uno em sua história, cultura e espiritualidade.
Desde a abertura oficial, as lideranças destacaram que aquele não seria apenas mais um encontro de organizações indígenas. Tratava-se da construção de uma nova etapa da luta do povo Magüta/Pogüta, baseada no protagonismo indígena, na valorização dos conhecimentos ancestrais e na construção de estratégias próprias para enfrentar desafios contemporâneos como o narcotráfico, as invasões territoriais, o avanço das economias ilegais, a perda cultural, as mudanças alimentares, os impactos sobre a juventude e a necessidade de ampliar o reconhecimento dos direitos originários.
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Uma das principais mensagens repetidas durante todo o encontro foi a afirmação de que o território Magüta/Pogüta é anterior à criação do Brasil, Peru e Colômbia. Segundo os participantes, as atuais fronteiras internacionais fragmentaram administrativamente um território ancestral contínuo, mas não romperam os laços históricos, familiares, espirituais e culturais existentes entre as comunidades.
As lideranças recordaram que rios, florestas, lagos, caminhos antigos, lugares sagrados e espaços de memória continuam interligando o povo, independentemente das divisões impostas pelos Estados nacionais. Por isso, defenderam que qualquer política pública voltada ao povo Magüta/Pogüta deve considerar essa realidade transfronteiriça e respeitar sua organização tradicional.
Entre os momentos mais marcantes do encontro esteve a aprovação, por consenso, da utilização oficial da expressão Magüta/Pogüta como autodenominação política, cultural e institucional do povo ancestral.
Durante o Grupo de Trabalho de Cultura e Identidade, anciãos e pesquisadores indígenas explicaram a origem dos termos Magüta, Pogüta, Ticuna e Tukuna, apresentando narrativas ancestrais transmitidas oralmente há gerações.
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Segundo os conhecimentos compartilhados pelos sábios, Magüta significa, em diferentes interpretações tradicionais, "o povo que aponta o arco para o alvo", "o povo pescado e transformado em gente" e "o povo que surgiu das águas", todas relacionadas às narrativas cosmológicas de origem do povo.
Já o termo Pogüta, utilizado principalmente no Peru e na Colômbia, preserva o mesmo significado ancestral, representando "o povo pescado" em outra variante linguística.
Em contrapartida, foi debatido que as palavras Ticuna e Tukuna possuem origem externa ao próprio povo, tendo sido atribuídas historicamente durante os processos coloniais. As lideranças defenderam que essas denominações sejam gradualmente substituídas pela autodenominação escolhida pelos próprios indígenas, fortalecendo a identidade e o direito à autodeterminação.
Outra decisão considerada histórica foi a aprovação da utilização da palavra Ãe'cacü como denominação oficial das lideranças tradicionais Magüta/Pogüta.
Durante os debates, foi ressaltado que expressões como "cacique", "curaca" e "capitão" possuem origens coloniais, administrativas ou militares e não representam adequadamente as formas tradicionais de organização política do povo.
Ao adotar o termo Ãe'cacü, as lideranças reafirmaram o compromisso com a valorização da língua originária, fortalecendo uma forma própria de reconhecer aqueles que exercem responsabilidades políticas, espirituais e comunitárias.
O Grupo de Trabalho de Governança Indígena promoveu uma ampla reflexão sobre os desafios enfrentados pelas organizações indígenas dos três países.
Os participantes defenderam que o futuro do povo Magüta/Pogüta depende do fortalecimento das próprias associações comunitárias, da formação de novas lideranças e da ampliação do acesso direto aos recursos financeiros destinados às políticas indígenas.
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As lideranças brasileiras realizaram uma análise crítica sobre os mecanismos atuais de financiamento, destacando que muitos recursos provenientes de fundos nacionais e internacionais são executados por instituições externas, enquanto as organizações de base continuam encontrando dificuldades para acessar diretamente esses investimentos.
Representantes do Peru e da Colômbia relataram desafios semelhantes, ressaltando a necessidade de maior autonomia administrativa e protagonismo indígena na elaboração, execução e monitoramento de projetos voltados aos territórios ancestrais.
Outro grande destaque do encontro foi o Grupo de Trabalho de Saúde e Prevenção Intercultural.
As discussões reafirmaram que os conhecimentos dos pajés, curandeiros, parteiras e médicos tradicionais constituem patrimônio ancestral indispensável para o cuidado integral do povo Magüta/Pogüta.
Durante os debates foram apresentados diversos remédios tradicionais utilizados no tratamento de enfermidades como inflamações, hipertensão, dores de cabeça, problemas de próstata e feridas, reforçando a necessidade de preservar esses conhecimentos e transmiti-los às novas gerações.
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As lideranças também defenderam o reconhecimento institucional dos médicos tradicionais, a criação de farmácias de plantas medicinais nos territórios indígenas, a implantação de um Centro de Saúde Intercultural Transfronteiriço e do CAIS Povos Indígenas Transfronteiriço, articulando Brasil, Peru e Colômbia em uma rede permanente de atenção intercultural.
Os participantes demonstraram preocupação com os impactos das mudanças sociais sobre a juventude indígena, destacando o crescimento do consumo de alimentos industrializados, a redução da prática de festas tradicionais em algumas comunidades e o aumento do uso problemático de álcool e outras drogas.
Como resposta, defenderam políticas voltadas ao fortalecimento da identidade cultural, da língua materna, da educação intercultural, da participação dos jovens e da valorização das práticas tradicionais como elementos fundamentais para promover o Bem Viver.
O terceiro dia do encontro foi marcado por um dos momentos mais emocionantes da programação.
A comunidade anfitriã realizou uma apresentação demonstrativa da Festa da Moça Nova, considerada uma das maiores expressões da identidade cultural Magüta/Pogüta.
Cantos tradicionais, danças, pinturas corporais, instrumentos musicais, adornos e ensinamentos ancestrais envolveram todos os participantes em uma experiência profunda de espiritualidade e pertencimento.
Mais do que uma celebração, o ritual simbolizou a continuidade da vida, da educação tradicional, do respeito aos anciãos e da transmissão dos conhecimentos que sustentam a existência do povo há milhares de anos.
Decisões que apontam para o futuro
Ao final do encontro, as lideranças aprovaram uma extensa agenda de compromissos, incluindo:
- oficialização da autodenominação Magüta/Pogüta;
- adoção do termo tradicional Ãe'cacü para as lideranças;
- criação da Aliança Transfronteiriça Magüta/Pogüta;
- fortalecimento da proteção territorial conjunta;
- implementação de mecanismos permanentes de vigilância indígena;
- criação de um Centro de Saúde Intercultural;
- implantação do CAIS Povos Indígenas Transfronteiriço;
- fortalecimento da medicina tradicional;
- criação de uma Escola de Saberes Ancestrais;
- ampliação da formação técnica e universitária da juventude;
- fortalecimento das organizações indígenas e da cooperação internacional.
Como encerramento da plenária final, as lideranças aprovaram a realização do II Encontro Internacional Transfronteiriço Magüta/Pogüta, previsto para 2027, na comunidade indígena Resguardo Arara - Pacuatü, na Colômbia.
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A escolha ocorreu por meio de sorteio entre as comunidades presentes, reafirmando o compromisso de alternar os países anfitriões e fortalecer a integração permanente entre Brasil, Peru e Colômbia.
O I Encontro Internacional Transfronteiriço Magüta/Pogüta encerrou-se com um sentimento coletivo de esperança e responsabilidade. As lideranças reconheceram que os desafios permanecem grandes, mas destacaram que a unidade construída durante os três dias de debates representa um novo capítulo na história do povo.
Mais do que um conjunto de resoluções, o encontro consolidou um projeto político baseado na autodeterminação, no fortalecimento da identidade, na proteção do território ancestral, na valorização da medicina tradicional e na formação das novas gerações.
Ao reunir um único povo separado apenas pelas fronteiras nacionais, o encontro reafirmou que a ancestralidade continua sendo o maior instrumento de resistência e que o futuro do povo Magüta/Pogüta será construído pela força de sua própria organização, de seus conhecimentos e de sua união coletiva.