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Diálogo Ancestral sobre o Território do Povo Magüta fortalece a memória, a ancestralidade e a defesa territorial na tríplice fronteira amazônica

  Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe Benjamin Constant (AM), 26 de maio de 2026 – O Museu Magüta de Benjamin Constant sediou o ...

 

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Benjamin Constant (AM), 26 de maio de 2026 – O Museu Magüta de Benjamin Constant sediou o importante encontro denominado Diálogo Ancestral sobre o Território do Povo Magüta, reunindo anciões, lideranças tradicionais, pesquisadores indígenas, estudantes e instituições parceiras em uma construção coletiva voltada ao fortalecimento da memória ancestral, da identidade cultural e da defesa do território tradicional do povo Magüta (Ticuna).

A atividade integra um amplo processo de pesquisa, documentação e valorização dos conhecimentos ancestrais do povo Magüta, desenvolvido por pesquisadores indígenas e anciões detentores dos saberes tradicionais, em articulação com universidades e instituições parceiras da Amazônia. O projeto foi financiado pela Fundação Gordon e Betty Moore e desenvolvido por meio de uma aliança entre o Museu Magütá de Mocagua, o Museu Magüta de Benjamin Constant, a Fundação Grupo Proa, a Florida International University (FIU) e contou com o apoio da Universidade Nacional da Colômbia – Sede Amazônia.

O trabalho foi conduzido por uma equipe intercultural formada por profissionais indígenas e não indígenas, composta por Abel Santos, coordenador do Museu Magütá de Mocagua; Salomão Inácio, co-investigador do Museu Magüta de Benjamin Constant; Sergio Ramos del Águila, sabedor tradicional e assessor cultural; Andrea Buitrago, antropóloga da Florida International University; Kornelis (Kees) van Vliet, especialista em Sistemas de Informação Geográfica (SIG) da Fundação Grupo Proa; Camila Pérez, coordenadora administrativa da Fundação Grupo Proa; e Marta Lujan, responsável pelo apoio às atividades realizadas no Brasil.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

O encontro teve como objetivo apresentar os resultados de um longo processo de pesquisa coletiva desenvolvido a partir das narrativas dos anciões, dos conhecimentos dos sabedores tradicionais e das contribuições de pesquisadores indígenas Magüta. Diferentemente dos estudos convencionais sobre territórios indígenas, este trabalho buscou compreender e representar o território ancestral a partir da própria visão cosmológica, histórica e cultural do povo Magüta.

Durante a apresentação dos resultados, foram compartilhados os principais eixos construídos coletivamente pelos anciões e pesquisadores indígenas, entre eles: os limites do território ancestral Magüta, a origem do território, os lugares de importância cultural e espiritual, os sistemas de vida que estruturam a relação entre os seres humanos e a natureza, os donos ou guardiões espirituais do território e os mandatos ancestrais que orientam a convivência harmoniosa com o mundo.

Segundo os participantes, o território Magüta não pode ser compreendido apenas como um espaço físico delimitado por mapas ou fronteiras políticas. Trata-se de um território vivo, construído a partir das histórias de origem, dos caminhos percorridos pelos ancestrais, dos ensinamentos deixados pelos heróis culturais e das relações espirituais estabelecidas entre os seres humanos, os animais, as plantas, os rios, os lagos e os demais habitantes do cosmos.

Os anciões destacaram que o território ancestral sempre foi habitado pelo povo Magüta antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus. As narrativas tradicionais registram que os acontecimentos protagonizados pelos heróis culturais e pelos criadores do mundo ocorreram ao longo de toda a extensão territorial atualmente ocupada por comunidades localizadas no Brasil, na Colômbia e no Peru.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Essas histórias constituem a base do conhecimento territorial Magüta e explicam a profunda relação existente entre o povo e seu território. Por meio delas, os anciões reconhecem e nomeiam rios, igarapés, montanhas, lagos, sistemas ecológicos e lugares sagrados que formam a geografia ancestral da nação Magüta.

Os participantes enfatizaram que a região da quebrada Eware, localizada atualmente em território brasileiro, ocupa um papel central na memória coletiva do povo Magüta. Segundo os conhecimentos tradicionais, este local representa um dos principais pontos de origem e dispersão do povo, constituindo uma referência fundamental para compreender a formação histórica e territorial da nação Magüta.

Ao longo das discussões, foi ressaltado que as fronteiras internacionais estabelecidas pelos Estados do Brasil, Colômbia e Peru não correspondem às formas tradicionais de organização territorial indígena. Para o povo Magüta, o território ancestral permanece integrado cultural, histórica e espiritualmente, independentemente das divisões político-administrativas criadas pelos governos nacionais.

As lideranças presentes defenderam a necessidade de fortalecer uma visão transfronteiriça do território ancestral, baseada nos vínculos históricos e culturais que unem as comunidades Magüta dos três países. Segundo os participantes, a proteção do território exige estratégias coletivas capazes de superar as limitações impostas pelas fronteiras nacionais e fortalecer a articulação entre as comunidades indígenas da região.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Outro aspecto amplamente debatido durante o encontro foi a proteção dos conhecimentos tradicionais e dos locais sagrados. As lideranças manifestaram preocupação com a divulgação inadequada de informações sensíveis produzidas em pesquisas acadêmicas e projetos de mapeamento territorial. Muitos lugares considerados sagrados possuem significados espirituais profundos e não podem ser expostos publicamente sem a autorização e o controle do próprio povo Magüta.

Os participantes destacaram que os instrumentos técnicos de georreferenciamento e cartografia podem contribuir para a defesa territorial, mas não são suficientes para representar a complexidade dos conhecimentos ancestrais. Muitos aspectos da territorialidade indígena envolvem dimensões espirituais, culturais e cosmológicas que não podem ser reduzidas a coordenadas geográficas ou representações cartográficas convencionais.

Nesse sentido, foi ressaltada a importância da criação de mecanismos próprios de gestão e proteção das informações territoriais indígenas, garantindo que os conhecimentos ancestrais permaneçam sob a guarda coletiva do povo Magüta e sejam utilizados de acordo com seus protocolos culturais e suas formas tradicionais de transmissão.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Durante a apresentação dos resultados da pesquisa, foram descritos diversos elementos que compõem a organização tradicional do território. O estudo identificou e sistematizou conhecimentos relacionados a montanhas sagradas, sistemas de vida, lugares de importância histórica e espiritual, além dos seres imortais e guardiões responsáveis pela manutenção do equilíbrio do mundo.

Os pesquisadores explicaram que esses conhecimentos demonstram a existência de uma complexa rede de relações entre pessoas, animais, espíritos, rios, florestas e demais elementos que compõem o território. Essa rede é regulada por mandatos ancestrais que orientam o comportamento humano e estabelecem formas adequadas de convivência com todos os seres existentes.

Os anciões ressaltaram que esses mandatos não representam apenas normas culturais, mas constituem princípios fundamentais para manter o equilíbrio entre os diferentes mundos e evitar tragédias, desequilíbrios ambientais e conflitos entre os seres que habitam o território.

Além da apresentação dos resultados, o encontro também se consolidou como um espaço de intercâmbio entre gerações. Jovens estudantes puderam dialogar diretamente com os anciões e ouvir relatos sobre a história do povo Magüta, fortalecendo os processos de transmissão dos conhecimentos tradicionais e incentivando a continuidade das práticas culturais.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

As lideranças destacaram que a juventude possui um papel estratégico na preservação dos conhecimentos ancestrais e na defesa territorial. Por isso, consideram fundamental ampliar iniciativas voltadas à documentação, valorização e ensino das histórias tradicionais, das línguas indígenas e dos conhecimentos relacionados ao território.

Ao final do encontro, os participantes reafirmaram a importância da união da Nação Magüta enquanto um único povo ancestral, reconhecendo que os vínculos culturais, espirituais e históricos permanecem vivos apesar das divisões territoriais impostas pelos Estados nacionais.

Como encaminhamento, foi anunciada a realização do futuro Encontro Transfronteiriço do Povo Magüta sobre Autodemarcação Política, Cultural e Territorial Ancestral, previsto para ocorrer no município de Caballococha, no Peru. O evento deverá reunir lideranças indígenas, pesquisadores, sabedores tradicionais e representantes comunitários do Brasil, da Colômbia e do Peru para aprofundar os debates sobre proteção territorial, fortalecimento cultural e autodeterminação dos povos indígenas da região.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

O Diálogo Ancestral sobre o Território do Povo Magüta representa mais um passo na valorização dos conhecimentos tradicionais e na reafirmação dos direitos territoriais indígenas, fortalecendo a memória coletiva, a identidade cultural e a continuidade histórica de um povo que há milênios habita e protege os territórios da Amazônia.

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