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Reinauguração da Rádio A’uma marca novo ciclo da comunicação indígena Magüta no Alto Solimões

Credito/Foto: La Magüta Native/Tarcy Muratu Ticuna Belém do Solimões (AM) – O dia 30 de maio entrou para a história do povo Magüta (Tikuna...

Credito/Foto: La Magüta Native/Tarcy Muratu Ticuna

Belém do Solimões (AM) – O dia 30 de maio entrou para a história do povo Magüta (Tikuna) como um marco de fortalecimento da comunicação indígena, da valorização da ancestralidade e da afirmação da autonomia dos povos originários. Lideranças tradicionais, anciãos, jovens comunicadores indígenas e representantes da comunidade participaram da cerimônia de reinauguração da Rádio A’uma, localizada na Terra Indígena Eware I, na Aldeia Belém do Solimões, município de Tabatinga, no Alto Solimões.

O momento foi definido pelos anciãos como um verdadeiro renascimento da voz coletiva do povo Magüta. Durante a cerimônia tradicional, marcada por cantos, bênçãos e palavras de sabedoria, uma das falas mais emocionantes veio dos mais velhos, que afirmaram que a rádio estava tendo novamente o seu “umbigo cortado”, expressão utilizada para simbolizar um novo nascimento, um recomeço fortalecido e protegido pelos ensinamentos ancestrais.

Para os anciãos, assim como uma criança recebe proteção e orientação ao nascer, a Rádio A’uma também recebeu novamente a bênção espiritual das lideranças tradicionais para seguir sua caminhada em defesa da cultura, da língua e dos direitos do povo Magüta. O ato simbólico reafirmou a importância da comunicação como instrumento de preservação da memória coletiva e da transmissão dos conhecimentos ancestrais às futuras gerações.

Durante a cerimônia, diversas lideranças destacaram que a comunicação indígena não se resume à transmissão de informações. Ela representa um caminho de fortalecimento territorial, de valorização da língua materna e de resistência cultural diante das transformações sociais que afetam os povos indígenas da Amazônia.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tarcy Muratu Ticuna

A Rádio A’uma nasceu em 2021 como uma iniciativa comunitária construída pelo próprio povo Magüta. Desde o início, teve como objetivo criar um espaço de comunicação produzido pelos indígenas e para os indígenas, permitindo que as histórias, conhecimentos, tradições e desafios das comunidades fossem narrados por seus próprios protagonistas.

Seu nome possui profundo significado cultural. “A’uma” faz referência ao pássaro conhecido como Capitão do Mato (Cricrió), cujo canto é considerado sagrado pelos anciãos Magüta. Segundo os conhecimentos tradicionais, o canto desse pássaro carrega mensagens importantes e representa orientação, vigilância e conexão espiritual com a floresta. Inspirada nesse simbolismo, a rádio tornou-se um canto coletivo que ecoa pelo território indígena, conectando passado, presente e futuro.

Ao longo dos últimos anos, mesmo sem possuir a regularização definitiva, a Rádio A’uma funcionou como emissora web e local, promovendo programas em língua Magüta e em português. Sua programação sempre esteve voltada para a valorização da cultura indígena, da educação, da saúde, da espiritualidade e do fortalecimento das organizações comunitárias.

Um dos diferenciais da emissora sempre foi o espaço concedido aos anciãos. Para o povo Magüta, os mais velhos são considerados bibliotecas vivas, guardiões da memória e responsáveis pela transmissão dos conhecimentos tradicionais. Por meio dos programas radiofônicos, eles compartilham histórias de origem, narrativas sobre o território, ensinamentos sobre a natureza, orientações para os jovens e reflexões sobre os desafios enfrentados pelas comunidades.

Durante a reinauguração, os anciãos destacaram que a rádio representa uma ferramenta essencial para garantir que a língua Magüta continue viva entre as novas gerações. Eles alertaram para a necessidade de fortalecer os espaços de uso da língua indígena diante do avanço de influências externas que muitas vezes enfraquecem as práticas culturais tradicionais.

Ao lado dos mais velhos, a juventude indígena também assumiu papel de destaque na construção da emissora. Jovens comunicadores Magüta participaram ativamente da organização da cerimônia e seguem conduzindo programas que abordam temas relacionados à identidade indígena, direitos dos povos originários, tecnologias digitais, educação, meio ambiente, espiritualidade e participação social.

Essa união entre juventude e ancestralidade é considerada uma das maiores forças da Rádio A’uma. Os jovens utilizam novas tecnologias e linguagens de comunicação sem abandonar os ensinamentos recebidos dos anciãos. Dessa forma, a rádio se transforma em uma ponte entre diferentes gerações, fortalecendo a continuidade cultural do povo Magüta.

A participação ativa dos jovens também demonstra uma importante transformação no cenário da comunicação regional. Historicamente, os meios de comunicação foram dominados por instituições externas às comunidades indígenas. Hoje, os próprios indígenas ocupam os espaços de produção de conteúdo, reportagem, entrevistas e gestão da comunicação comunitária.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tarcy Muratu Ticuna

Ao assumirem os microfones, câmeras e plataformas digitais, os comunicadores Magüta reafirmam o direito dos povos indígenas de contar suas próprias histórias e apresentar suas perspectivas sobre os acontecimentos que impactam seus territórios. Essa prática fortalece a autonomia dos povos originários e contribui para combater estereótipos e invisibilidades historicamente presentes na sociedade brasileira.

Outro momento importante da trajetória da emissora ocorreu durante o processo de regularização institucional. Nos últimos anos, a rádio passou por diferentes etapas administrativas e chegou a adotar temporariamente a denominação Rádio Indígena Eware, em referência ao território sagrado do povo Magüta. Entretanto, após diálogo com lideranças, comunicadores e membros da comunidade, decidiu-se manter oficialmente o nome Rádio A’uma, preservando a identidade histórica e simbólica construída desde sua criação.

A conquista mais celebrada durante a reinauguração foi justamente a confirmação da regularização junto ao Ministério das Comunicações. Após anos de espera, mobilizações e acompanhamento dos processos burocráticos, a emissora alcançou o reconhecimento institucional necessário para consolidar suas atividades de forma legítima e permanente.

Para as lideranças indígenas, essa conquista representa reconhecimento do direito à comunicação dos povos indígenas e fortalece a luta histórica por espaços próprios de informação, expressão cultural e participação social.

A regularização garante maior segurança jurídica para o funcionamento da emissora e abre novas possibilidades para ampliação de sua programação, realização de parcerias institucionais, formação de comunicadores indígenas e fortalecimento das ações de comunicação comunitária no Alto Solimões.

Durante a cerimônia, diversas lideranças ressaltaram que a Rádio A’uma é resultado do esforço coletivo da comunidade, das organizações indígenas, dos anciãos, dos jovens comunicadores e de todos aqueles que acreditam na comunicação como instrumento de fortalecimento cultural e defesa dos direitos indígenas.

Hoje, a Rádio A’uma se consolida como a primeira rádio comunitária web e local da Terra Indígena Eware I, tornando-se referência para outras iniciativas de comunicação indígena na região amazônica. Sua existência demonstra que a comunicação pode ser construída a partir das realidades locais, respeitando os conhecimentos tradicionais e fortalecendo os vínculos comunitários.

A reinauguração marcou o início de uma nova etapa dessa trajetória. Como afirmaram os anciãos durante a cerimônia, a rádio teve novamente seu umbigo cortado e recebeu uma nova vida. Agora, fortalecida pela bênção dos mais velhos, pela energia da juventude e pela conquista da regularização oficial, a Rádio A’uma segue seu caminho como a voz do povo Magüta, ecoando saberes ancestrais, fortalecendo identidades e conectando gerações em defesa do território, da cultura e do Bem Viver.

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