Por redação Tchurucü Mẽpe Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe A Terra Indígena Umariaçu, no município de Tabatinga, Alto Solimõe...
Por redação Tchurucü Mẽpe

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe
A Terra Indígena Umariaçu, no município de Tabatinga, Alto Solimões (AM), foi cenário, no início de maio de 2026, da abertura do II Festival Cultural de Dança To’oena um dos mais importantes eventos culturais protagonizados pela juventude do povo Magüta/Ticuna. Realizado na comunidade Umariaçu II, o festival nasce da organização coletiva dos jovens, que assumem o papel de guardiões e continuadores das práticas culturais, reafirmando a força da identidade indígena em um contexto de transformações sociais e desafios contemporâneos.
A abertura do festival foi marcada por um ambiente de celebração, espiritualidade e pertencimento, reunindo jovens, lideranças, anciãos, crianças e famílias inteiras em torno da valorização da cultura Magüta. Mais do que um evento artístico, o To’oena se consolida como um espaço de transmissão de saberes ancestrais, onde a dança, os cantos, os grafismos corporais e os adereços tradicionais expressam a cosmovisão do povo e fortalecem os vínculos comunitários.
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe |
A programação de abertura contou com a apresentação dos Curandeiros, Magüta Guerreiro e Guerreira em categoria individual, que vêm se preparando ao longo dos meses para o momento do festival. Cada jovens trouxe interpretação próprias, construídas a partir das experiências vividas no território, dos ensinamentos dos mais velhos e da criatividade da juventude. Os movimentos corporais dialogam com histórias antigas, enquanto incorporam novas expressões, mostrando que a cultura está em constante movimento.
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| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe |
A juventude, ao assumir a organização do festival, demonstra sua capacidade de liderança e articulação. Desde o planejamento, mobilização comunitária, ensaios, construção dos espaços até a condução das apresentações, os jovens mostram que são protagonistas de seu próprio tempo. Essa autonomia é fundamental para o fortalecimento da identidade e para a continuidade das práticas culturais, especialmente diante das pressões externas que muitas vezes tentam deslegitimar os modos de vida indígenas.
A abertura do II Festival To’oena também se insere em um contexto mais amplo de fortalecimento das ações comunitárias voltadas à juventude. Nos dias que antecederam o evento, foram realizadas atividades formativas, esportivas e educativas, como oficinas de prevenção às violências e redução de danos, que dialogam diretamente com a realidade vivida no território. Essa integração entre cultura, saúde e educação reforça o conceito de Bem Viver, central para o povo Magüta.
O festival, portanto, é uma estratégia de cuidado coletivo. Ao ocupar o tempo e o espaço da juventude com atividades culturais, esportivas e educativas, a comunidade cria alternativas saudáveis de convivência, reduzindo vulnerabilidades e fortalecendo os vínculos sociais. A dança, nesse contexto, torna-se um instrumento de proteção, expressão e transformação.
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe |
Outro aspecto importante observado na abertura foi a participação ativa das mulheres jovens, que ocupam espaços centrais nas apresentações e na organização. A presença feminina reforça o papel das mulheres na manutenção da cultura e na transmissão de conhecimentos, além de contribuir para a construção de uma comunidade mais equilibrada e respeitosa em relação às diversidades.
A abertura do festival foi também um momento de reafirmação política. Em um cenário marcado por ameaças aos territórios Magüta, pela entrada de substâncias ilícitas, pela violência e por influências externas, o fortalecimento da cultura torna-se uma forma de resistência. A juventude, ao dançar, afirma sua existência, seu pertencimento e seu direito de continuar sendo povo.
A To’oena, enquanto símbolo central do festival, reforça essa dimensão. A moça nova representa o futuro do povo, mas um futuro que só é possível quando há conexão com o passado. Assim, cada apresentação torna-se um elo entre tempos, um espaço onde o ancestral e o contemporâneo se encontram.
A comunidade Umariaçu II, ao sediar o evento, reafirma seu papel como espaço de resistência cultural e de produção de conhecimento indígena. A realização do festival fortalece a autoestima coletiva e projeta a cultura Magüta para além do território, mostrando sua riqueza, diversidade e capacidade de reinvenção.
Além disso, o evento contribui para a valorização da língua Ticuna, que está presente nos cantos, nas falas e nas expressões utilizadas durante as apresentações. A língua é um dos pilares da identidade cultural e sua presença no festival reforça a importância de sua preservação e fortalecimento.
A abertura do II Festival Cultural de Dança To’oena demonstra que a juventude Magüta está organizada, consciente de seu papel e comprometida com a continuidade de seu povo. Ao unir tradição e inovação, os jovens constroem caminhos próprios, reafirmando que a cultura é um processo vivo, dinâmico e coletivo.
Nesse sentido, o festival se consolida como um espaço de formação política, cultural e social, onde a juventude aprende, ensina e transforma. É um território de encontro, de celebração e de resistência, onde cada dança é um ato de afirmação da vida.
Por fim, a abertura do II Festival To’oena evidencia que o futuro do povo Magüta está nas mãos de sua juventude uma juventude que dança, que cria, que resiste e que constrói, todos os dias, novas formas de existir sem romper com suas raízes. Ao fortalecer o pertencimento, o festival garante que a identidade Magüta continue viva, pulsante e em constante movimento.

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