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Prevenir a partir do território Magüta: povos indígenas fortalecem a construção de políticas sobre drogas em Tabatinga

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe Formação do Programa CRIA reúne órgãos públicos, pesquisadores, instituições locais e lideran...

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Formação do Programa CRIA reúne órgãos públicos, pesquisadores, instituições locais e lideranças indígenas e abre espaço para que conhecimentos, experiências comunitárias e ciência dialoguem na construção de estratégias de prevenção ao uso de álcool, drogas e outras substâncias

Tabatinga, no Alto Solimões, tornou-se palco de um movimento que pode representar uma mudança importante na forma de pensar políticas públicas de prevenção ao uso de álcool, drogas e outras substâncias em territórios indígenas: em 11 e 12 de setembro de 2026, a Formação em Prevenção e Cidadania no âmbito do Programa CRIA reuniu representantes do poder público, pesquisadores, profissionais da rede de proteção, organizações indígenas e diferentes atores locais para discutir estratégias de prevenção construídas a partir da realidade do território. A iniciativa teve a colaboração do CAIS Povos Indígenas de Tabatinga e colocou no centro do debate a participação dos próprios povos indígenas na formulação, adaptação e implementação das ações preventivas. A programação disponibilizada para a formação apresenta atividades voltadas ao conhecimento do contexto comunitário, identificação de fatores de risco e proteção, mapeamento de recursos locais, reconhecimento das formas de cuidado e elaboração coletiva de planos de ação.

O encontro reuniu nomes estratégicos para esse processo, entre eles Nara Denise de Araújo, diretora de Prevenção e Reinserção Social da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD/MJSP); o advogado Adriano Tukano, da Estratégia Nacional Indígena; Meiry Coelho, da coordenação regional do Programa CRIA; e Daniela Ribeiro Schneider, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A presença de representantes indígenas e de instituições que atuam diretamente no território reforçou uma mensagem central da formação: prevenção não pode ser pensada apenas a partir de gabinetes, protocolos ou modelos externos, mas precisa dialogar com as formas de organização, os conhecimentos, os vínculos comunitários e as experiências concretas dos povos que vivem nos territórios. O próprio MJSP destacou que a formação em Tabatinga foi concebida com conteúdo adaptado aos contextos indígenas e com participação das comunidades desde o início do processo.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

A proposta apresentada durante a formação está relacionada ao Comunidades Que Cuidam (CQC), iniciativa de prevenção baseada em evidências que busca fortalecer a capacidade das comunidades para reconhecer seus próprios desafios, identificar fatores de risco e proteção e organizar respostas preventivas. Documentos oficiais da SENAD descrevem o CQC como um sistema comunitário de prevenção que articula lideranças locais, realiza diagnósticos participativos e apoia a construção de planos de ação, integrando estratégias preventivas já validadas. Em Tabatinga, entretanto, o desafio ganha outra dimensão: adaptar essa metodologia às especificidades socioculturais dos povos indígenas, sem apagar conhecimentos tradicionais, formas próprias de organização, sistemas de cuidado e maneiras indígenas de compreender corpo, território, comunidade, juventude e bem viver.

Foi justamente nesse ponto que a participação indígena ganhou importância política e metodológica. Durante a formação, representantes e profissionais indígenas puderam apresentar suas experiências, percepções e conhecimentos sobre o território, contribuindo para que o debate sobre prevenção ultrapassasse uma visão exclusivamente técnica do uso de substâncias. A programação previa, inclusive, que os participantes apresentassem seu nome, etnia, instituição de trabalho e movimento ou organização indígena da qual participam. Também foram propostas atividades para conhecer a visão da comunidade sobre os problemas locais, iniciar o mapeamento dos fatores de risco e proteção e identificar recursos e formas de cuidado existentes no território.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

O diferencial está justamente em reconhecer que os territórios indígenas não são apenas espaços onde uma política pública será executada: são espaços produtores de conhecimento e de soluções. Em vez de perguntar somente “qual programa deve ser levado para a comunidade?”, a metodologia trabalhada em Tabatinga provoca uma pergunta mais profunda: quais cuidados, pessoas, instituições, conhecimentos e redes já existem no território e como podem ser fortalecidos? Essa mudança de perspectiva permite aproximar ciência da prevenção, políticas públicas e conhecimentos indígenas, criando possibilidades para respostas mais adequadas à realidade local. Entre as ferramentas utilizadas estão o mapa da empatia, o trabalho com corpo-território e o mapeamento de ações e recursos comunitários.

A participação das instituições locais também foi decisiva. A formação contou com a presença e articulação de setores como a Secretaria Municipal de Educação de Tabatinga (SEMED-TBT), coordenação da educação escolar indígena, Conselho Tutelar, CRAS, CREAS, Escritório Social, associações indígenas, DSEI Alto Rio Solimões, Secretaria de Segurança Pública, IFAM, entre outras instituições e organizações que compõem a rede de proteção. Essa diversidade mostra que a prevenção não pode ser responsabilidade isolada de uma secretaria ou de uma política específica. Ela depende da capacidade de diferentes setores dialogarem e atuarem conjuntamente, especialmente quando se trata de crianças, adolescentes, jovens, famílias e comunidades expostas a diferentes situações de vulnerabilidade.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

A presença do CAIS Povos Indígenas de Tabatinga nesse processo representa outro elemento estratégico. Ao atuar como espaço de acesso a direitos, escuta e articulação de políticas para povos indígenas, o CAIS contribui para aproximar prevenção, cuidado, assistência social, saúde, cidadania e realidade territorial. Sua colaboração na formação possibilitou conectar a discussão nacional sobre políticas de drogas às experiências que vêm sendo construídas no Alto Solimões. A própria SENAD apresenta os CAIS como parte de uma estratégia de promoção de direitos e reinserção social, com atuação multidisciplinar e atenção às demandas relacionadas ao uso de substâncias e à exclusão social.

No segundo momento da formação, a metodologia avançou da leitura do território para a construção coletiva de possibilidades de ação. A atividade denominada “Árvore da Vida” trabalhou a comunidade e seus fatores de proteção, seguida de discussão e registro dos elementos identificados pelos participantes. Depois, os chamados Planos de Ação buscaram identificar prioridades, desafios, pessoas-chave, formas possíveis de governança e os fóruns ou coletivos importantes para mobilizar no território. Esse desenho revela uma característica essencial da proposta: não se trata apenas de capacitar profissionais, mas de construir coletivamente uma capacidade local de prevenção.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Essa perspectiva pode ser particularmente significativa porque prevenção não se resume à informação sobre os riscos das substâncias. Ela envolve também fortalecer vínculos familiares e comunitários, valorizar a juventude, ampliar espaços de participação, reconhecer formas tradicionais de cuidado, proteger crianças e adolescentes, garantir acesso a direitos e enfrentar fatores sociais que podem aumentar vulnerabilidades. A política nacional de prevenção também trabalha com a ideia de fortalecer fatores de proteção e reduzir fatores de risco associados ao uso problemático de substâncias e às violências. O Plano Nacional de Política sobre Drogas 2026–2030, por exemplo, estabelece entre suas metas ampliar ações territoriais do Programa CRIA e fortalecer uma perspectiva de prevenção ampliada.

A formação também representa um passo importante para superar uma antiga lógica na qual os povos indígenas aparecem apenas como público-alvo das políticas públicas. A proposta aponta para outra direção: indígenas participando como sujeitos políticos, agentes comunitários, profissionais, pesquisadores, lideranças, educadores e produtores de conhecimento. Essa participação pode influenciar não apenas a execução das ações, mas também a maneira como os problemas são definidos, quais prioridades são escolhidas e quais estratégias são consideradas adequadas para cada comunidade. A própria SENAD afirmou que a agenda em Tabatinga busca preencher uma lacuna do Programa CRIA ao desenvolver uma abordagem voltada aos territórios indígenas, com participação comunitária desde o início.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

O encontro também aproxima a experiência local de um processo mais amplo de construção científica e institucional. A UFSC possui participação no desenvolvimento da adaptação cultural do sistema Comunidades Que Cuidam à realidade brasileira, em parceria com a SENAD, com objetivo de avaliar sua efetividade e contribuir para a prevenção ao uso de álcool e outras drogas e para a promoção da saúde mental de adolescentes. Nesse cenário, a presença da pesquisadora Daniela Ribeiro Schneider e de outros atores da universidade amplia a possibilidade de que as experiências dos territórios indígenas sejam consideradas na produção de conhecimento, na avaliação das estratégias e no aperfeiçoamento das políticas públicas. Daniela também integra o Comitê Científico do CRIA Ciência, eixo dedicado à construção de evidências do Programa CRIA.

A agenda de Tabatinga sinaliza uma disputa por novos caminhos na política de prevenção: quem define o problema, quem produz o conhecimento e quem participa da construção da solução? Ao colocar instituições públicas, ciência, rede de proteção e povos indígenas em diálogo, o processo abre espaço para que a prevenção seja construída com o território e não simplesmente levada até ele. A experiência do Alto Solimões poderá contribuir para uma política pública mais intercultural, participativa e conectada às realidades das comunidades. No fim, a principal mensagem que emerge de Tabatinga é direta: prevenir não é apenas evitar o uso problemático de álcool, drogas e outras substâncias; é fortalecer pessoas, famílias, juventudes, comunidades, direitos, vínculos e territórios. E, quando se trata de povos indígenas, nenhuma política de prevenção será verdadeiramente completa se os próprios povos não estiverem sentados à mesa para construir seus caminhos.

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