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Do silêncio à escuta: Liderança Magüta leva a realidade do Alto Solimões ao centro do debate nacional sobre segurança

Participação de Eder Ticuna, da região de Umariaçu, no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública expõe desafios da proteção terr...

Participação de Eder Ticuna, da região de Umariaçu, no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública expõe desafios da proteção territorial, violência e ausência de políticas permanentes na fronteira amazônica

Foto: ASCOM Fórum

São Paulo (SP) - A realidade do Alto Solimões chegou ao centro de um dos principais espaços nacionais de discussão sobre segurança pública. Durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), realizado entre os dias 15 e 18 de setembro de 2026, em São Paulo, a liderança indígena Eder Ticuna, do povo Magüta, da TI Umariaçu, no Alto Solimões, participou das discussões relacionadas à proteção territorial indígena.

A presença de uma liderança do Alto Solimões no encontro representa, segundo Eder, uma oportunidade para ampliar os espaços de diálogo e fazer com que uma região frequentemente distante dos centros nacionais de decisão seja reconhecida dentro das discussões sobre segurança pública, território, fronteira e proteção dos povos indígenas.

A programação oficial do 20º Encontro incluiu debates específicos sobre ameaças a direitos e segurança pública em Terras Indígenas, desintrusão, sustentabilidade das ações de proteção e, na sexta-feira, uma mesa dedicada à garantia de direitos e ao enfrentamento ao crime organizado em territórios indígenas, dentro do debate sobre o Programa Território Seguro e a Amazônia Soberana.

Mas, para a liderança Magüta, estar naquele espaço não significava apenas participar de mais um evento. Significava levar uma realidade que, durante muito tempo, permaneceu distante das discussões nacionais.

Eder avalia que o principal desafio é fazer com que o Alto Solimões deixe de ser visto apenas como uma região distante da Amazônia e passe a ser compreendido como um território que enfrenta problemas específicos de segurança, violência, fronteira, presença do crime organizado, fragilidades institucionais e proteção territorial.

“A gente consegue que o Alto Solimões se insira numa rede de interlocução para debater essa pauta.”

Essa é uma das principais sínteses apresentadas por Eder sobre sua participação no encontro. Um dos momentos mais marcantes da participação ocorreu quando a realidade vivenciada pelas comunidades indígenas foi apresentada não apenas por meio de discursos, mas também por imagens.

Segundo o relato de Eder, a liderança indígena solicitou que fossem apresentadas fotografias capazes de demonstrar concretamente situações de violência vivenciadas no território. A decisão tinha uma finalidade clara: mostrar aquilo que, muitas vezes, permanece invisível para quem está distante das comunidades.

“A gente fala, fala, mas pensa que não acredita”, relatou Eder ao reconstruir a preocupação apresentada pelo cacique.

As imagens, segundo ele, produziram um impacto entre os participantes. A realidade que estava sendo discutida deixou de ser apenas uma estatística, uma denúncia ou uma narrativa distante. Passou a ser visualizada por meio de registros concretos.

Para Eder, esse momento revelou uma das dificuldades enfrentadas pelas comunidades do Alto Solimões: a distância entre aquilo que acontece no território e aquilo que chega aos espaços onde são formuladas, discutidas ou executadas as políticas públicas. A crítica não é dirigida apenas à ausência de ações. Ela também envolve a dificuldade de fazer com que as instituições compreendam a dimensão dos problemas existentes na região.

O relato apresentado durante o encontro colocou uma questão central: quem está acompanhando permanentemente a realidade dos territórios indígenas?

Para Eder, segurança pública e território indígena não podem ser tratados como assuntos separados. A proteção territorial, segundo a perspectiva apresentada pela liderança, envolve também a segurança das pessoas, das famílias, das comunidades e das juventudes indígenas.

No Alto Solimões, essa discussão ganha características particulares por se tratar de uma região de fronteira internacional e por envolver diferentes comunidades indígenas distribuídas em um território marcado por grandes distâncias geográficas. Eder afirma que uma das preocupações apresentadas no debate foi justamente a falta de uma política permanente de segurança pública voltada às especificidades dos territórios indígenas da região.

“Segurança pública e território indígena não é uma questão que alguém, eu diria assim, não é um interesse mesmo de alguém, de uma política permanente em Tabatinga.”

Na avaliação apresentada pela liderança, essa ausência de continuidade contribui para deixar as comunidades mais vulneráveis. A questão, portanto, não estaria apenas na existência ou não de uma determinada operação policial. O problema estaria também na continuidade das ações depois que uma operação termina, na presença institucional no território e na capacidade de acompanhar as transformações que ocorrem nas comunidades.

Uma das falas mais contundentes associadas à participação de Eder está relacionada ao que ele identifica como uma espécie de desinteresse ou baixa prioridade institucional em relação aos problemas do Alto Solimões. A crítica aparece a partir de uma percepção construída pela própria experiência das lideranças: enquanto as comunidades relatam situações de violência, ameaças e vulnerabilidades, muitas vezes existe a sensação de que esses problemas não recebem a mesma atenção quando chegam aos espaços de decisão.

Foto: ASCOM Fórum

Segundo Eder, é justamente por isso que a presença indígena nesses espaços nacionais é importante. É necessário que os próprios povos indígenas possam apresentar suas experiências, seus problemas e suas propostas. A participação no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nesse sentido, foi utilizada como espaço de interlocução. Eder relata que o encontro permitiu conversar com pesquisadores, organizações e setores que atuam no campo da segurança e que podem contribuir para ampliar a discussão sobre o Alto Solimões.

“A gente amplia o radar de atuação, os diálogos.”

A expressão resume uma estratégia: levar o território para além de suas fronteiras geográficas.

A presença de Eder no encontro também foi apresentada como parte de um processo iniciado anteriormente. Segundo a liderança, a participação de representantes do Alto Solimões em espaços nacionais de segurança pública ganhou força a partir das discussões realizadas na própria região.

Nesse sentido, o I Fórum Internacional Indígena de Segurança Pública, Justiça Social e Acordos de Paz em Contexto de Fronteira, realizado nos dias 23 a 26 de junho de 2025, realizado anteriormente em Tabatinga, aparece como um dos pontos de articulação desse processo. O encontro regional colocou em discussão temas relacionados à segurança, proteção territorial, direitos, juventude, fronteira e desafios enfrentados pelos povos indígenas.

A partir dessas discussões, lideranças passaram a buscar novos espaços de interlocução. Eder explica que sua participação no encontro nacional não deve ser compreendida simplesmente como uma consequência automática do Fórum Internacional, mas como parte de uma ampliação das Redes construídas a partir das discussões realizadas no território, mas que não foram construídas de forma fácil.

A lógica é simples: se os problemas são vivenciados no território, os debates também precisam alcançar os espaços onde diferentes setores da sociedade discutem políticas públicas. O Alto Solimões, nesse movimento, passa a ocupar uma posição de fala. Não apenas como objeto de pesquisa. Não apenas como território de fronteira. Não apenas como região amazônica. Mas como território indígena que possui experiências, conhecimentos e demandas próprias.

A participação de Eder também possui um significado simbólico. Segundo as informações apresentadas pela liderança, esta foi a segunda participação de uma representação do Solimões no evento. A primeira participação havia sido de Josi Ticuna, ampliando gradualmente a presença da região em um espaço nacional de debate sobre segurança pública.

O dado ganha importância porque demonstra que a participação do Alto Solimões nesses espaços ainda é recente. Durante muito tempo, debates nacionais sobre segurança pública foram conduzidos predominantemente a partir de experiências urbanas e de grandes centros populacionais. As realidades indígenas e fronteiriças possuem características distintas. Quando uma liderança Magüta ocupa uma mesa de discussão, ela acrescenta ao debate uma experiência territorial que não pode ser completamente traduzida pelos modelos convencionais de segurança pública.

A presença indígena, portanto, amplia a própria compreensão sobre o que significa segurança. Um dos principais debates acompanhados por Eder durante o encontro esteve relacionado às operações de desintrusão em Terras Indígenas.

Segundo seu relato, parte das discussões se concentrou em experiências realizadas em diferentes regiões do país, incluindo a Terra Indígena Yanomami. As operações de retirada de garimpeiros foram apresentadas no debate como ações importantes para interromper atividades ilegais.

Mas, segundo a reflexão levada por Eder, existe uma pergunta que permanece aberta: O que acontece depois da retirada?

A saída de invasores de uma Terra Indígena não significa automaticamente que todos os problemas do território foram resolvidos. Depois de uma operação, permanecem desafios relacionados à proteção, acompanhamento, reconstrução das relações comunitárias, prevenção de novas invasões e presença institucional. Foi justamente nesse espaço de discussão que Eder afirma ter encontrado uma oportunidade para apresentar a situação do Alto Solimões.

“Mas não tudo é desintrusão de territórios que estão numa situação extremamente complexa, vulnerabilizada.”

A fala chama atenção para uma questão frequentemente pouco visível: existem territórios em que as comunidades precisam se organizar continuamente para enfrentar situações de vulnerabilidade, enquanto a presença do Estado permanece considerada insuficiente pelas próprias lideranças.

O Alto Solimões possui uma característica que torna a discussão ainda mais complexa: é uma região de fronteira internacional. Brasil, Colômbia e Peru estão conectados por relações históricas, culturais, econômicas e territoriais. Para os povos indígenas que vivem nessa região, as fronteiras nacionais não eliminam as relações entre comunidades. Ao mesmo tempo, a condição fronteiriça produz desafios específicos para as políticas de segurança. O próprio programa do 20º Encontro incluiu discussões sobre crime organizado, fluxos transnacionais, controle territorial e segurança na Amazônia.

Também esteve prevista uma reunião sobre o Fórum Regional sobre Segurança Multidimensional na Amazônia, demonstrando que as questões amazônicas e fronteiriças estavam presentes na programação do evento. É nesse cenário que o Alto Solimões busca ampliar sua voz. Para Eder, a região precisa ser observada não somente quando uma crise alcança proporções nacionais. A proteção precisa ser construída antes.

Outro aspecto que atravessa essa discussão é a situação das juventudes indígenas. Para as comunidades, os jovens estão entre aqueles que podem ficar mais expostos às transformações sociais, econômicas e territoriais que atravessam a região. A preocupação apresentada pelas lideranças envolve especialmente situações de vulnerabilidade e a possibilidade de aproximação de redes criminosas.  A discussão sobre segurança, portanto, não pode ser limitada ao policiamento. Também precisa envolver prevenção, educação, oportunidades, fortalecimento comunitário, cultura, participação juvenil e proteção dos territórios.

Nesse sentido, falar de segurança indígena significa falar também de futuro. A juventude que cresce nas aldeias precisa encontrar caminhos para permanecer vinculada ao território e às suas referências culturais, sem que a violência ou outras formas de vulnerabilidade determinem seu futuro. Essa é uma das razões pelas quais Eder considera importante que a realidade do Alto Solimões esteja presente nos espaços nacionais.

A imagem que rompeu o silêncio

O uso das fotografias durante a apresentação talvez seja uma das imagens mais simbólicas desse processo. De um lado, estavam lideranças que há anos relatam os problemas vivenciados no território. Do outro, estavam representantes de instituições, pesquisadores e participantes de um grande encontro nacional. Entre eles, havia uma distância que não era apenas geográfica.

Era também uma distância de percepção. Para quem vive no território, determinadas situações fazem parte da rotina de preocupação. Para quem está distante, elas podem parecer acontecimentos isolados. As imagens ajudaram a diminuir essa distância. Segundo Eder, quando as fotografias foram apresentadas, houve um impacto entre os participantes.

O que estava sendo relatado passou a ser visualizado. E esse talvez tenha sido um dos momentos mais importantes da participação: mostrar que as denúncias feitas pelas comunidades não são apenas discursos abstratos, mas relatos sobre vidas concretas.

Foto: Divulgação


“A gente fala, fala…” A frase atribuída ao cacique durante o processo de pós apresentação resume uma sensação relatada por muitas comunidades: falar nem sempre significa ser ouvido. Denunciar não significa necessariamente receber resposta. Solicitar proteção não significa automaticamente ter uma política permanente.

É justamente nessa diferença entre falar e ser ouvido que aparece a importância da presença indígena em espaços nacionais. Eder não foi ao encontro apenas para ouvir especialistas falando sobre segurança. Foi também para apresentar o que acontece no território. A participação representa uma mudança de posição: o indígena deixa de aparecer somente como alguém sobre quem as políticas são pensadas e passa a participar da construção do próprio debate.

Na sexta-feira, segundo o relato de Eder, representantes da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD/MJSP) apresentaram a proposta do Programa Território Seguro, vinculada ao debate sobre garantia de direitos e enfrentamento ao crime organizado em territórios indígenas.

De acordo com Eder, foi apresentada a perspectiva de implementação do programa entre 2026 e 2030, com atenção especial às regiões de fronteira e às vulnerabilidades existentes em territórios indígenas. Para o Alto Solimões, essa discussão representa uma nova oportunidade de diálogo. Mas a própria liderança demonstra cautela. A experiência das comunidades ensinou que anúncios e propostas precisam ser acompanhados de ações concretas.

“É um investimento bem alto. Mas, tu sabe, né? Vamos ver.”

A frase revela uma expectativa acompanhada de prudência. Não se trata apenas de anunciar uma política. É necessário verificar como ela chegará ao território. Quem estará presente? Quais comunidades serão alcançadas? Como as lideranças participarão? Como será feito o acompanhamento? Quais serão os resultados? E, principalmente, como garantir continuidade?

A principal questão colocada pela participação de Eder pode transformar o reconhecimento dos problemas em presença permanente no território? Para quem vive em comunidades distantes dos grandes centros, uma política pública pode existir formalmente e, ainda assim, não produzir mudanças concretas se não considerar as condições locais.

Distâncias, rios, logística, comunicação, diversidade linguística, organização comunitária, especificidades culturais e características da fronteira precisam ser consideradas. No Alto Solimões, a proteção territorial também depende da capacidade de dialogar diretamente com as comunidades. É nesse ponto que a participação indígena deixa de ser apenas simbólica. Ela se torna parte do processo de construção das políticas.

A participação de Eder também trouxe uma crítica mais profunda: a sensação de que determinadas autoridades e setores responsáveis por políticas públicas ainda não conhecem suficientemente a realidade do Alto Solimões.

Essa percepção foi expressa diante das próprias lideranças. Uma das razões pode estar na falta de circulação de informações sobre aquilo que acontece nas comunidades. Se as situações não chegam aos espaços de decisão, a percepção externa pode ser de que a região está tranquila.

“A gente pensava que o Alto Solimões já está normal, está tranquilo.”

A frase sintetiza o problema da invisibilidade. Uma região pode estar distante dos grandes noticiários e, ainda assim, enfrentar problemas graves. O silêncio não significa ausência de problemas. Às vezes, significa apenas que os problemas ainda não conseguiram atravessar as barreiras que separam o território dos centros de decisão.

O caminho percorrido por essas denúncias mostra como a participação social pode criar novas possibilidades de interlocução. As comunidades denunciam. As lideranças organizam. Os fóruns registram. Os órgãos públicos recebem. Pesquisadores acompanham. E, gradualmente, a realidade local pode chegar a espaços nacionais. O desafio é fazer com que esse caminho seja de mão dupla.

Não basta levar informações para São Paulo. É necessário que os debates realizados em São Paulo retornem ao Alto Solimões em forma de diálogo, políticas públicas, ações de proteção, investimentos e acompanhamento. Esse é um dos grandes desafios colocados para as próximas etapas.

A participação de Eder Ticuna está inserida em uma trajetória maior de mobilização das comunidades indígenas do Alto Solimões. A presença de uma liderança Magüta em um evento nacional de segurança pública representa também a presença de um território.

Foto: Cristina

É Umariaçu. É Tabatinga. É o Alto Solimões. É a Amazônia de tríplice-fronteira. É a experiência de comunidades que convivem diariamente com problemas que nem sempre aparecem nos grandes centros urbanos. Por isso, quando Eder fala diante de pesquisadores, autoridades e representantes de instituições, não está simplesmente apresentando uma opinião individual. Está levando para aquele espaço uma experiência construída a partir do território e das comunidades.

A participação no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública abre uma nova etapa. Não porque todos os problemas tenham sido solucionados. Não porque uma única participação seja capaz de transformar uma política pública. Mas porque o Alto Solimões ampliou sua presença em uma rede nacional de diálogo.

A grande mensagem deixada pela participação de Eder é que a proteção não pode começar somente depois que uma situação grave acontece. As comunidades querem ser ouvidas antes. Querem participar da construção das políticas. Querem que as instituições conheçam seus territórios. Querem que as juventudes sejam consideradas. Querem que as especificidades indígenas estejam presentes nas estratégias de segurança. E querem, principalmente, que a presença do Estado seja permanente e articulada. O desafio está colocado. A discussão iniciada em São Paulo precisa continuar no Alto Solimões.

A participação da liderança Magüta no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública deixa uma imagem que ultrapassa o próprio evento. É a imagem de uma liderança amazônica diante de um público nacional dizendo, em essência, que existe uma realidade que precisa ser conhecida. Uma realidade que envolve território, violência juventude fronteira segurança, direitos. Ausência institucional, proteção e resistência.

As fotografias apresentadas durante a discussão tiveram justamente esse papel: fazer com que aquilo que durante anos foi relatado oralmente pudesse ser visto. Porque, como sintetiza o relato apresentado por Eder, as comunidades falam há muito tempo. O que falta, muitas vezes, é que suas vozes encontrem espaços capazes de escutá-las.

A participação de Eder Ticuna também carrega para o centro da discussão uma realidade que, segundo ele, precisa ser enfrentada diretamente dentro das comunidades do Alto Solimões. Entre as preocupações apresentadas está a situação das juventudes indígenas, diante de relatos recentes de aumento de casos de suicídio entre jovens e de um sentimento crescente de descrença em relação aos espaços tradicionais de diálogo, pesquisa e intervenção.

A preocupação das lideranças não se limita à ocorrência das mortes. Ela envolve também a dificuldade de construir respostas permanentes para situações que vêm sendo discutidas há anos. Segundo Eder, muitas vezes são realizados diálogos, reuniões, pesquisas e levantamentos sobre os problemas enfrentados pelas comunidades, mas os resultados nem sempre retornam ao território na forma de ações concretas.

Nesse contexto, surge uma pergunta que atravessa a fala das lideranças: até que ponto a comunidade ainda acredita que falar sobre seus problemas será suficiente para provocar mudanças? A juventude precisa perceber que existe um caminho possível dentro do próprio território. Isso passa pela criação de oportunidades de estudo, trabalho, formação profissional, participação social e valorização dos conhecimentos indígenas.

A preocupação aumenta quando jovens não encontram perspectivas concretas de futuro. As oportunidades de acesso às universidades e ao mercado de trabalho ainda são percebidas como limitadas, especialmente para aqueles que vivem nas comunidades. Para a liderança, não basta incentivar os jovens a estudar se, depois da formação, eles não encontram possibilidades reais de trabalhar, contribuir com suas comunidades e desenvolver seus conhecimentos.

“Todos deveriam ter oportunidade de trabalhar.”

A afirmação expressa uma preocupação que ultrapassa a questão econômica. Para as lideranças, trabalho e formação também estão relacionados à autonomia, à autoestima, à permanência no território e à possibilidade de os jovens enxergarem um futuro dentro de suas próprias comunidades.

O 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública abriu uma dessas portas. Agora, o desafio é maior: fazer com que a escuta se transforme em diálogo permanente, e que o diálogo se transforme em políticas públicas capazes de alcançar efetivamente os territórios. Para o Alto Solimões, a participação de Eder Ticuna representa mais do que uma presença em uma programação nacional.

Representa a tentativa de colocar a região no mapa das discussões sobre segurança pública. Representa a afirmação de que os povos indígenas não podem ser apenas destinatários de políticas elaboradas à distância. E representa, sobretudo, uma mensagem que parte das aldeias e chega aos centros de decisão: o Alto Solimões está falando. E agora é preciso escutar.

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