Foto: Divulgação No dia 30 de janeiro de 2026, o município de Tabatinga entra para a história da educação Escolar Kokama no Alto Solimões. N...
![]() |
| Foto: Divulgação |
No dia 30 de janeiro de 2026, o município de Tabatinga entra para a história da educação Escolar Kokama no Alto Solimões. No auditório da Escola Municipal Gilberto Mestrinho (Botinho), lideranças, educadores, estudantes, anciãos e parceiros institucionais se reuniram para o lançamento oficial do livro didático do Povo Kokama um marco simbólico e político que reafirma: o povo Kokama existe, o povo Kokama resiste.
TANA KOKAMA! KOKAMA TAPUYA TA!
Este lançamento representa a retomada da palavra, da memória e da dignidade de um povo que, por décadas, enfrentou processos sistemáticos de exclusão, invisibilização e preconceito estrutural. No Alto Solimões, a história Kokama foi atravessada por estigmas e por um etnocentrismo persistente que tentou negar sua existência, sua língua e seus modos próprios de ensinar e aprender. Ainda hoje, tais desafios permanecem. Mas, como demonstrado neste dia histórico, o povo Kokama se levanta, se organiza e constrói caminhos próprios.
![]() |
| Foto: Gracildo Kokama |
O livro didático lançado é fruto de anos de mobilização comunitária, diálogo intergeracional e trabalho coletivo. Trata-se de uma produção construída com o povo Kokama e para o povo Kokama, respeitando seus saberes ancestrais, sua territorialidade e sua visão de mundo. A obra nasce do entendimento de que educação indígena diferenciada não se limita à tradução de conteúdos, mas exige a valorização da língua materna, das narrativas próprias, da oralidade, dos cantos, das histórias e das práticas cotidianas que sustentam a identidade Kokama.
A língua Kokama, como tantas outras línguas indígenas no Brasil e no mundo, passou por longos períodos de silenciamento forçado. Durante décadas, políticas assimilacionistas e práticas discriminatórias empurraram essa língua para a margem, causando o seu “adormecimento” em muitos contextos. O lançamento deste livro didático é, portanto, um gesto concreto de revitalização linguística, alinhado aos esforços globais de proteção das línguas ameaçadas.
Não por acaso, este momento histórico acontece em plena Década Internacional das Línguas Indígenas (2022–2032), proclamada pela UNESCO, que chama atenção para a urgência de ações lideradas pelos próprios povos indígenas para garantir a transmissão intergeracional de suas línguas. O material Kokama surge como uma resposta viva a esse chamado internacional, mostrando que, quando há protagonismo indígena, a educação se transforma em ferramenta de resistência e futuro.
![]() |
| Foto: Divulgação |
O evento também evidenciou a força da articulação comunitária. Lideranças Kokama, professores indígenas, pesquisadores, comunicadores e jovens caminharam juntos para tornar esse sonho realidade. Cada página do livro carrega afetos, lutas e memórias. Ele será uma ferramenta fundamental para as novas gerações Kokama, fortalecendo a autoestima, a identidade e o pertencimento desde a infância.
Iniciativas como a La Magüta Native - EtnoMultMidia celebram e reconhecem a importância desse material, que amplia as vozes indígenas e rompe com narrativas externas que historicamente falaram sobre os povos, mas raramente com os povos. O livro didático Kokama contribui para mudar esse cenário, ao afirmar que o conhecimento indígena é legítimo, científico e essencial para a diversidade cultural do Brasil.
O lançamento foi encontro de gerações ouvindo os mais velhos, lideranças, e jovens reafirmando sua identidade, educadores emocionados ao verem sua língua impressa em páginas que circularão nas escolas. Cada fala, cada canto e cada gesto reforçou uma certeza coletiva, o povo Kokama nunca deixou de existir.
Este livro didático se torna também um instrumento político. Ele afirma direitos, fortalece a educação escolar indígena e contribui para o enfrentamento do racismo e do etnocentrismo. Mais do que ensinar a ler e escrever, ele ensina a ser Kokama.
Que este dia histórico inspire outras comunidades, outros povos e outras iniciativas. Que o livro didático Kokama circule, seja vivido nas salas de aula, nas casas, nos territórios e nas rodas de conversa. E que ele seja apenas o começo de muitos outros materiais, projetos e políticas construídas a partir do protagonismo indígena.



Nenhum comentário
Postar um comentário