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Comunicação ancestral e tecnologia: Povo Magüta cria rádio indígena e se prepara para as infovias do Norte Conectado

  Crédito: ADACAIBS A chegada da internet de alta qualidade às regiões mais remotas da Amazônia, por meio das infovias do programa Norte Con...

 

Crédito: ADACAIBS

A chegada da internet de alta qualidade às regiões mais remotas da Amazônia, por meio das infovias do programa Norte Conectado, começa a produzir impactos concretos antes mesmo da conclusão da infraestrutura. Entre os dias 22 e 25 de janeiro de 2026, a maior aldeia indígena do município de Tabatinga, Comunidade Distrito de Belém do Solimões, foi palco do 8º Encontro de Cidadania Digital, promovido pelo Projeto Terra Preta, iniciativa que articula formação, comunicação comunitária e inclusão digital com base nos saberes amazônicos.

O encontro reuniu comunicadores indígenas, educadores, jovens e lideranças comunitárias do povo Magüta (Tikuna) e marcou o início das transmissões oficiais da Rádio A’uma, reconhecida como a primeira rádio comunitária 100% indígena do alto solimões AM, construída e gerida integralmente por comunicadores indígenas do território.

Crédito: ABACAIBS

Com a chegada do Programa Norte Conectado é uma iniciativa do Ministério das Comunicações do Brasil, cujo objetivo é expandir a infraestrutura de comunicações de alta velocidade na Região Amazônica por meio da implantação de cabos de fibra óptica subfluvial, conectando municípios e localidades remotas e beneficiando milhões de habitantes.

Essas redes conhecidas como infovias são cabos submersos, mas a base física que possibilitará que povos indígenas e ribeirinhos tenham acesso à internet banda larga de alta capacidade, reduzindo décadas de isolamento digital. No total, 9 infovias farão parte do projeto, interligando mais de 70 localidades e beneficiando cerca de 7,5 milhões de pessoas em seis estados da Amazônia brasileira.

O encontro no território Magüta foi estruturado na convicção de que a simples chegada da infraestrutura não garante a inclusão digital. Para que comunidades tradicionais possam usar a internet de maneira produtiva, segura e culturalmente alinhada, é necessária formação prévia, prática e contextualizada.

Crédito: ADACAIBS

Durante o evento formativo, as oficinas e atividades práticas foram organizadas com o objetivo de fortalecer a autonomia digital das comunidades indígenas, articulando tecnologia, cultura e cidadania. Cada eixo trabalhado respondeu a necessidades concretas do território e às transformações trazidas pela chegada da conectividade de alta qualidade.

As atividades abordaram práticas de navegação segura, proteção de dados pessoais e cuidados com golpes digitais, temas fundamentais para comunidades que passarão a acessar a internet de forma mais ampla. Também foram discutidas estratégias para identificar notícias falsas, conteúdos manipulados e discursos que desinformam ou atacam povos indígenas. O foco esteve no fortalecimento do pensamento crítico, para que a internet seja utilizada como ferramenta de informação confiável, defesa de direitos e proteção coletiva, e não como instrumento de violação ou exploração.

Os participantes foram incentivados a produzir conteúdos digitais a partir de suas próprias vivências, línguas, saberes tradicionais e narrativas comunitárias. A proposta rompe com modelos externos de comunicação e valoriza a autoria indígena, estimulando o uso da internet para registrar histórias, divulgar práticas culturais, fortalecer identidades e dar visibilidade às pautas do território. Essa abordagem reforça a ideia de que a tecnologia deve servir à cultura viva dos povos indígenas, e não substituí-la.

Outro eixo importante foi a apresentação de plataformas digitais que permitem o acesso a serviços públicos (governo digital), como saúde, educação, documentação e participação em consultas públicas. As oficinas demonstraram como a conectividade pode ampliar o exercício da cidadania, reduzir deslocamentos longos e custosos e facilitar a comunicação direta com instituições do Estado. Para as lideranças comunitárias, esse conhecimento representa maior capacidade de incidência política e acompanhamento de políticas públicas.

Crédito: ADACAIBS

De forma prática, os participantes aprenderam a montar mini transmissores e a produzir conteúdos em áudio, como podcasts e programas radiofônicos. Essa atividade fortaleceu a comunicação comunitária, especialmente com a consolidação da rádio indígena, permitindo que a informação circule no próprio território, em língua indígena e com conteúdos relevantes para a comunidade. A produção de podcasts foi apresentada como uma extensão digital da tradição oral, conectando o conhecimento ancestral às novas tecnologias.

O encontro foi também palco do lançamento oficial das transmissões da Rádio A’uma, reconhecida como a primeira rádio comunitária indígena no Alto Solimões AM um marco histórico no cenário da comunicação tradicional e digital.

Para as comunidades, sobretudo a Magüta, essa rádio representa mais que um meio de informação: é um instrumento de fortalecimento da identidade cultural, de preservação das línguas e saberes ancestrais, e de promoção da cidadania digital. A Rádio A’uma nasce com a missão de dar voz aos povos originários, oferecendo uma plataforma própria para suas histórias, músicas, debates, saberes tradicionais e reportagens locais.

Crédito: ADACAIBS

Os participantes do encontro destacaram de forma consensual que a tecnologia, para os povos indígenas, nunca foi compreendida como um fim em si mesma, mas como um instrumento a serviço da vida coletiva. Essa compreensão parte de uma visão própria de mundo, na qual os conhecimentos, as ferramentas e as inovações só fazem sentido quando contribuem para o fortalecimento das relações comunitárias, a transmissão dos saberes ancestrais e a construção da autonomia dos territórios.

Nesse sentido, a chegada da conectividade proporcionada pelas infovias do programa Norte Conectado, aliada ao fortalecimento de iniciativas como a Rádio A’uma, é percebida como uma oportunidade estratégica de uso consciente da tecnologia, alinhada às realidades socioculturais indígenas e aos princípios do bem-viver.

A conectividade possibilita que as comunidades registrem e divulguem suas histórias, rituais, músicas, línguas e memórias a partir de suas próprias vozes. Ferramentas digitais e meios comunitários, como a rádio indígena, ampliam a circulação desses conteúdos tanto dentro quanto fora do território, contribuindo para a preservação cultural, o fortalecimento identitário e o enfrentamento de estereótipos historicamente impostos aos povos indígenas.

A internet de qualidade permite o desenvolvimento de processos educativos que dialogam com a realidade local, integrando saberes tradicionais e conhecimentos contemporâneos. Para jovens, educadores e lideranças, a educação digital contextualizada amplia oportunidades de formação, acesso a conteúdos educativos e troca de experiências com outros territórios, sem romper com os valores culturais da comunidade.

Com a conectividade, as comunidades passam a ter maior autonomia no acesso a serviços públicos digitais, como saúde, educação, documentação civil, benefícios sociais e plataformas de participação social. Isso reduz deslocamentos longos e custosos, fortalece o acompanhamento de políticas públicas e amplia a capacidade das lideranças de dialogar diretamente com instituições governamentais.

A internet e a comunicação comunitária permitem criar e fortalecer redes próprias entre aldeias, povos e territórios vizinhos, facilitando a troca de informações, a articulação política e a mobilização coletiva. A Rádio A’uma, nesse contexto, atua como um elo estratégico, conectando comunidades, promovendo a circulação de informações relevantes e reforçando a solidariedade entre os povos indígenas da região.

Crédito: ADACAIBS

O Projeto Terra Preta é promovido pela Entidade Administradora da Faixa (EAF), em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). A parceria alia expertise acadêmico, articulação técnica e sensibilidade cultural para garantir que a conectividade chegue às comunidades com estruturas de uso capazes de gerar impactos sociais positivos.

Segundo especialistas envolvidos, a capacitação realizada não se resume ao uso de aparelhos ou software, mas busca ancorar a tecnologia numa perspectiva de desenvolvimento comunitário, com foco na geração de renda, fortalecimento cultural e no exercício pleno da cidadania digital.

Desde junho de 2025, o Projeto Terra Preta tem promovido encontros semelhantes em diferentes regiões da Amazônia, envolvendo centenas de participantes de mais de uma dezena de povos tradicionais e etnias. As atividades já percorreram municípios no Amazonas, Pará e Roraima e planejam novas etapas de capacitação ao longo de 2026.

O lançamento da Rádio A’uma, associado à formação em cidadania digital, simboliza uma nova fase para as comunidades indígenas do Alto Solimões e, em particular, para o povo Magüta. Trata-se de um processo em que tecnologia, cultura e autonomia se entrelaçam, abrindo caminhos para uma comunicação que respeita e potencializa os saberes ancestrais na era digital.

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