Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe No Alto Solimões, onde o tempo não se mede nos calendários oficiais, mas pela memória viva do...
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| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe |
No Alto Solimões, onde o tempo não se mede nos calendários oficiais, mas pela memória viva dos povos, o passado não está encerrado. Ele continua presente nos corpos, nas histórias e nas lutas cotidianas. O povo Magüta, conhecido também como Ticuna, a história recente é marcada por um episódio de extrema violência que permanece sem a devida reparação, o massacre ocorrido em 1988. Passadas quase quatro décadas, a dor não cessou. Ao contrário, segue sendo reatualizada por novas formas de ameaça, silenciamento e disputa territorial.
“Nossa lágrima é uma só, nossa causa é de todos.” A frase, que ecoa entre lideranças e comunidades, expressa uma visão coletiva do sofrimento e da resistência. No pensamento Magüta, a dor não é individualizada ela é compartilhada, transmitida entre gerações e transformada em luta contínua pela vida, pela dignidade e pelo território.
O massacre de 1988 insere em um contexto mais amplo de violências históricas contra os povos indígenas da Amazônia, marcadas por invasões territoriais, exploração de recursos, racismo estrutural e ausência do Estado. Naquele período, conflitos intensos envolveram interesses econômicos, disputas fundiárias e a tentativa sistemática de desarticular as formas próprias de organização do povo Magüta.
As consequências desse episódio foram profundas com vidas interrompidas, famílias desestruturadas, comunidades traumatizadas. No entanto, para além da violência física, houve também uma tentativa de apagamento de narrativas, de identidades e de direitos. Esse apagamento, segundo lideranças indígenas, continua sendo uma das principais formas de violência enfrentadas até hoje.
Após 38 anos, o sentimento predominante entre os Magüta é de que a justiça ainda não foi plenamente realizada. Há um clamor crescente pela reativação e reconhecimento do caso como genocídio, não apenas como um crime do passado, mas como parte de um processo contínuo de violação de direitos. A ausência de responsabilização efetiva dos mandantes e executores é vista como um dos principais fatores que alimentam a perpetuação das ameaças.
Um dos pontos mais sensíveis levantados pelas comunidades diz respeito à permanência e, em alguns casos, à ascensão de descendentes, familiares e aliados dos responsáveis pelo massacre em espaços estratégicos. Segundo relatos, essas pessoas ocupam hoje posições de influência em instituições locais e em territórios tradicionalmente indígenas, o que gera um ambiente de insegurança e desconfiança.
Essa presença não é neutra. Para os Magüta, ela representa a continuidade simbólica e política da violência. A ocupação de espaços institucionais por essas figuras é percebida como uma forma de controle e de limitação da autonomia indígena, dificultando o acesso a direitos e a implementação de políticas públicas adequadas.
Além disso, há denúncias de que discursos e práticas anti-indígenas seguem sendo reproduzidos, muitas vezes de forma velada, mas com efeitos concretos. Expressões como “contra-Magüta”, “contra-Ticuna” ou “anti-Magüta” não são apenas palavras elas revelam uma estrutura de pensamento que legitima a exclusão, a discriminação e a violência.
Entre os nomes mencionados com preocupação pelas lideranças está o de famílias ligadas ao chamado “Castelo Branco”, apontadas como herdeiras de estruturas de poder que historicamente se opuseram aos direitos do povo Magüta. Para as comunidades, essas famílias representam uma das maiores ameaças atuais, não apenas pelo passado, mas pela atuação presente.
Diante desse cenário, o povo Magüta reafirma sua posição de resistência. Resistir, nesse contexto, não significa apenas sobreviver, mas continuar existindo com dignidade, mantendo suas práticas culturais, sua língua, sua organização social e sua relação com o território. A resistência é também uma forma de justiça uma justiça construída a partir de dentro, baseada nos valores coletivos e na memória ancestral.
A luta pela reativação do caso de genocídio é, portanto, mais do que uma demanda jurídica. É um ato político e simbólico, que busca romper com o ciclo de impunidade e afirmar a existência do povo Magüta como sujeito de direitos. Trata-se de exigir que o Estado reconheça não apenas o ocorrido, mas suas responsabilidades históricas e atuais.
Nesse processo, a memória desempenha um papel central. Lembrar é um ato de resistência. Contar as histórias, nomear os acontecimentos, transmitir os ensinamentos tudo isso contribui para fortalecer a identidade coletiva e evitar que a violência se repita. A memória, para os Magüta, não está no passado: ela é parte do presente e orienta o futuro. Ao mesmo tempo, há um esforço contínuo de articulação política, envolvendo lideranças, organizações indígenas e aliados. A busca por justiça se dá em múltiplos níveis local, nacional e internacional e envolve estratégias diversas, desde denúncias formais até mobilizações comunitárias.
Outro aspecto importante é o papel das novas gerações. Mulheres e Jovens Magüta têm assumido protagonismo na defesa de seus direitos, utilizando diferentes linguagens e ferramentas, incluindo a comunicação digital, a produção cultural e a atuação acadêmica. Essa juventude carrega a memória dos mais velhos, mas também projeta novos caminhos para o futuro. A situação atual revela que o massacre de 1988 não pode ser compreendido apenas como um evento encerrado. Ele é parte de uma estrutura de violência que se atualiza e se reinventa. A permanência de ameaças, a disputa por território e a reprodução de discursos discriminatórios indicam que a luta está longe de terminar.
Diante disso, o povo Magüta reafirma: sua causa não é isolada. Ela dialoga com as lutas de outros povos indígenas, de comunidades tradicionais e de todos aqueles que defendem a justiça, a diversidade e os direitos humanos. “Nossa lágrima é uma só” porque a dor é coletiva. “Nossa causa é de todos” porque a justiça também deve ser.
A construção de um futuro diferente passa necessariamente pelo reconhecimento do passado. Sem memória, não há justiça. Sem justiça, não há paz. E sem paz, não há possibilidade de convivência verdadeira. O que os Magüta reivindicam não é privilégio, mas respeito. Não é vingança, mas reparação. Não é silêncio, mas escuta.
E, acima de tudo, o direito de continuar existindo.

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