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Formação intercultural em redução de danos no Alto Solimões reafirma saberes ancestrais Magüta e propõe novos caminhos de cuidado

Credito/Foto:  La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe Entre os dias 29 de março e 4 de abril, a Aldeia Indígena Ticuna de Belém do Solimões, situad...

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Entre os dias 29 de março e 4 de abril, a Aldeia Indígena Ticuna de Belém do Solimões, situada na região do Alto Solimões  território estratégico da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru tornou-se espaço de encontro entre diferentes mundos de conhecimento. Jovens, pessoas com experiências relacionadas ao uso problemático de substâncias e profissionais indígenas participaram de uma formação inédita voltada à atuação como agentes indígenas de redução de danos.

A iniciativa foi realizada pelo Cais Povos Indígenas do Brasil em apoio com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, e se destaca por propor uma abordagem intercultural que reconhece, valoriza e articula os saberes ancestrais dos povos indígenas com conhecimentos técnicos das áreas da saúde, pisicolgia, antropologia e políticas públicas.

De acordo com o documento base da formação, o objetivo central foi promover acesso a informações e técnicas de prevenção de riscos e danos associados ao uso de substâncias, sem desconsiderar a autonomia dos povos indígenas, seus direitos e seus sistemas próprios de cuidado. No entanto, o encontro revelou um princípio fundamental do conhecimento Magüta: o cuidado não pode ser separado da espiritualidade, da coletividade e da relação com o território.

Durante a formação, ficou evidente que os povos indígenas do Alto Solimões não partem do vazio quando se trata do enfrentamento ao uso problemático de álcool, drogas e outras substâncias. Ao contrário, existe um profundo acúmulo de conhecimentos milenares relacionados ao uso, manejo e cuidado com substâncias psicoativas.

Esses conhecimentos envolvem práticas rituais, uso de plantas de poder, medicinas tradicionais, cantos, orientações espirituais e sistemas coletivos de proteção. O uso de determinadas substâncias como parte de contextos culturais, espirituais e sociais específicos.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

“Temos a cura e tratamento ancestral”, afirmaram participantes, destacando que o cuidado já existe nos territórios, mesmo antes da chegada de políticas públicas ou intervenções externas. Ao mesmo tempo, há um reconhecimento claro de que o cenário atual apresenta novos desafios. A introdução de substâncias como álcool destilado, cocaína, crack e outros produtos industrializados, associados às rotas do narcotráfico na região de fronteira, tem provocado desequilíbrios profundos nas comunidades.

Segundo a proposta metodológica da formação, essas substâncias são compreendidas como parte de um processo histórico de colonização e controle, diferindo das chamadas “plantas de poder” tradicionais, que possuem funções culturais e espirituais específicas.

A região do Alto Solimões é considerada um dos principais corredores do narcotráfico na Amazônia. Essa realidade impacta diretamente as comunidades indígenas, onde jovens são frequentemente aliciados e expostos a contextos de violência, vulnerabilidade social e ruptura de vínculos comunitários. Durante a formação, participantes relataram experiências concretas de atuação em seus territórios, muitas vezes sem qualquer formação técnica formal. Ainda assim, utilizam estratégias próprias de cuidado, baseadas em saberes ancestrais, relações familiares e redes comunitárias.

Essas práticas incluem acolhimento, escuta, uso de plantas medicinais, rituais de proteção e acompanhamento coletivo ações que, na lógica ocidental, se aproximam do conceito de redução de danos, mas que, para os povos indígenas, fazem parte de uma cosmologia mais ampla de cuidado e equilíbrio.

Um dos pontos centrais debatidos durante a formação foi a diferença entre abordagens proibicionistas e estratégias de redução de danos. A proposta adotada parte do princípio de que o uso de substâncias faz parte da experiência humana e que o cuidado deve priorizar a vida, a dignidade e a autonomia das pessoas. Isso significa que não se exige abstinência como condição para o cuidado. Em vez disso, busca-se reduzir riscos imediatos, evitar violências e fortalecer vínculos comunitários.


Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

Essa perspectiva dialoga diretamente com o conhecimento indígena, que valoriza o equilíbrio e a responsabilidade coletiva. Como destacado nas atividades formativas, o objetivo não é punir ou excluir o “parente” em situação de uso, mas acolher, proteger e reintegrar. Um aspecto marcante da formação foi a troca de experiências entre conhecimentos indígenas e não indígenas. Profissionais da saúde e especialistas contribuíram com informações técnicas sobre farmacologia, efeitos das substâncias e estratégias de intervenção. Por outro lado, os povos indígenas compartilharam seus conhecimentos sobre plantas, rituais e formas de cuidado. No entanto, esse compartilhamento ocorreu com limites claros.

“Nosso conhecimento é muito caro, não podemos partilhar, pois é sagrado”, afirmaram lideranças, reforçando que nem todos os saberes podem ser expostos ou sistematizados em formatos externos. Essa afirmação evidencia a interculturalidade não significa apropriação ou tradução total dos saberes indígenas, mas sim respeito às suas fronteiras, tempos e significados.

A formação também teve como foco o fortalecimento do protagonismo indígena. Os participantes foram preparados para atuar como agentes de redução de danos em seus próprios territórios, respeitando suas culturas, línguas e formas de organização.

Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mẽpe

A participação de jovens foi um dos pontos mais relevantes do encontro. Muitos relataram já ter atuado em contextos de cuidado, mesmo sem formação formal, utilizando conhecimentos herdados de seus ancestrais. Ao mesmo tempo, reconheceram os desafios enfrentados diante do avanço das drogas industrializadas e da presença do narcotráfico na região. Apesar disso, a juventude indígena demonstrou forte disposição para aprender, compartilhar e construir alternativas. A formação foi vista como uma oportunidade única de fortalecer essas iniciativas e ampliar o alcance das ações comunitárias.

A formação representa um passo importante na construção de políticas públicas mais sensíveis às realidades indígenas. Ao reconhecer os saberes ancestrais e promover o diálogo intercultural, a iniciativa aponta para novos caminhos no enfrentamento ao uso problemático de substâncias. No entanto, os desafios permanecem. A continuidade dessas ações dependerá do fortalecimento das redes locais, do apoio institucional e do respeito às autonomias indígenas.

Assim destaca que o cuidado precisa nascer do território, da memória e da coletividade. Trata-se de restaurar o equilíbrio da vida. Em um contexto marcado por vulnerabilidades, mas também por resistências, a mensagem que emerge do Alto Solimões é potente, os povos indígenas são apenas são produtores de conhecimento, agentes de cuidado e protagonistas de suas próprias histórias.

E, diante de um cenário complexo, reafirmam que suas respostas não estão apenas nos manuais técnicos, mas na sabedoria ancestral que há séculos sustenta seus modos de viver e cuidar.

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