Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mepe Nos dias 4 de março de 2026, lideranças Magüta, autoridades tradicionais e representantes inst...
![]() |
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mepe |
Nos dias 4 de março de 2026, lideranças Magüta, autoridades tradicionais e representantes institucionais do povo Magüta/Ticuna reuniram-se na Maloca Casaína, localizada na sede Amazônia da Universidade Nacional da Colômbia, na cidade de Letícia, no departamento do Amazonas colombiano. O encontro teve como principal objetivo realizar a reunião preparatória para o I Congresso Internacional Transfronteiriço do Povo Magüta/Ticuna, previsto para ocorrer nos dias 2 e 3 de julho de 2026, na comunidade Kuchillo Cocha, situada na região amazônica do Peru.
A reunião reuniu representantes do povo Ticuna provenientes de três países amazônicos Brasil, Colômbia e Peru consolidando um importante espaço de diálogo e articulação política entre lideranças indígenas que compartilham uma mesma origem histórica, cultural e territorial. O encontro teve como propósito principal construir as bases organizativas, metodológicas e políticas do congresso internacional, que busca fortalecer a unidade do povo Magüta/Ticuna e avançar na construção de mecanismos de governança indígena em contexto transfronteiriço.
A iniciativa surge em um momento considerado estratégico pelas lideranças Magüta, diante dos desafios comuns enfrentados pelas comunidades Ticuna nos três países. Entre as principais preocupações destacadas estão a insegurança territorial, a pressão sobre os recursos naturais, os impactos de atividades ilícitas na região amazônica e as dificuldades na garantia de políticas públicas interculturais que respeitem as especificidades dos povos indígenas.
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mepe |
O povo Ticuna, conhecido também como Magüta ou Pogüta em sua autodenominação, é considerado um dos maiores povos indígenas da Amazônia. Estima-se que sua população esteja entre 70 mil e 100 mil pessoas, distribuídas principalmente na região da tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Colômbia e Peru.
No Brasil encontra-se a maior parte da população Ticuna, com aproximadamente 74 mil pessoas, concentradas sobretudo nos municípios de Tabatinga, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins e Jutaí, todos localizados no estado do Amazonas. Na Colômbia, a população Ticuna é estimada em cerca de 15 mil pessoas, com presença significativa no departamento do Amazonas, especialmente nas comunidades próximas à cidade de Letícia e ao longo do rio Amazonas. Já no Peru, estima-se que aproximadamente 14 mil Ticuna habitem diferentes comunidades da região amazônica peruana.
Apesar da divisão territorial imposta pelas fronteiras nacionais estabelecidas ao longo do processo de formação dos Estados modernos na América do Sul, o povo Ticuna mantém fortes vínculos culturais, familiares, linguísticos e espirituais entre suas comunidades. Essa continuidade histórica faz com que os Ticuna sejam reconhecidos como um povo Magüta transfronteiriço, cuja organização social e territorial antecede a própria existência das fronteiras políticas atuais.
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mepe |
Durante a reunião preparatória, as lideranças ressaltaram que o povo Magüta/Ticuna constitui um único povo originário, historicamente ligado a um território ancestral comum. Essa identidade compartilhada se expressa na língua Ticuna, nos sistemas de conhecimento tradicional, nas formas de organização comunitária e nos rituais que continuam sendo praticados nas comunidades da região amazônica. Um dos principais pontos debatidos durante a reunião foi o conjunto de desafios enfrentados pelas comunidades Ticuna nos três países da Amazônia. As lideranças destacaram problemas que atravessam fronteiras e afetam diretamente a vida cotidiana das comunidades.
Entre os desafios mencionados estão as dificuldades relacionadas à regularização e proteção dos territórios Magüta/Ticuna, bem como a presença de atividades ilegais na região amazônica, como desmatamento, invasões de terras e exploração irregular de recursos naturais. Esses processos têm provocado impactos ambientais e sociais significativos nas comunidades indígenas. Outro tema destacado foi a presença de cultivos ilícitos e atividades associadas ao narcotráfico em algumas regiões da Amazônia, o que gera insegurança e pressões adicionais sobre os territórios indígenas. As lideranças ressaltaram que essas dinâmicas afetam diretamente as comunidades, trazendo consequências sociais complexas.
Também foram mencionadas as dificuldades no acesso a serviços de saúde intercultural, capazes de dialogar com os conhecimentos tradicionais e respeitar as práticas de cura indígenas. Nesse contexto, destacou-se a importância da valorização da medicina tradicional Ticuna e da integração entre saberes indígenas e sistemas de saúde pública. Questões sociais como alcoolismo e uso problemático de outras substâncias também foram debatidas como desafios presentes em diversas comunidades. As lideranças defenderam a construção de estratégias comunitárias e políticas públicas que considerem as especificidades culturais dos povos indígenas.
Outro ponto de preocupação refere-se à preservação da língua Ticuna e dos saberes ancestrais, especialmente diante das transformações sociais e culturais que afetam as novas gerações. Para muitas lideranças, fortalecer a língua e os conhecimentos tradicionais é fundamental para garantir a continuidade da identidade Magüta.
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mepe |
Durante a reunião preparatória, os participantes definiram uma série de eixos temáticos que deverão orientar os debates do I Congresso Internacional Transfronteiriço do Povo Magüta/Ticuna. Entre os principais temas propostos está o debate sobre saúde intercultural, com foco na criação de mecanismos de atenção em saúde que respeitem os sistemas tradicionais de cuidado do povo Ticuna. Também foi destacada a importância da recuperação e valorização das práticas de medicina tradicional presentes nas comunidades.
Outro eixo central será o debate sobre território e governança indígena, incluindo reflexões sobre a concepção do território ancestral Ticuna e as experiências de gestão territorial desenvolvidas nas comunidades dos três países. Nesse campo, foi apresentada a proposta de criação de uma aliança estratégica transfronteiriça Magüta/Ticuna, formada por representantes do Brasil, Colômbia e Peru, com o objetivo de fortalecer a articulação política internacional do povo Ticuna. Também foi discutida a possibilidade de implementar mecanismos de vigilância territorial permanente, como forma de proteção dos territórios indígenas e de monitoramento de ameaças ambientais e sociais.
No campo cultural, os participantes propuseram reflexões sobre a situação atual da língua Ticuna, dos rituais tradicionais e das práticas culturais que marcam a identidade do povo Magüta. Foram mencionadas também as danças tradicionais, o artesanato, as bebidas e comidas típicas, bem como outros elementos fundamentais da cultura Ticuna. Uma das propostas apresentadas foi a criação de uma escola de saberes ancestrais, baseada na estrutura tradicional da maloca, espaço simbólico e comunitário de transmissão de conhecimentos entre gerações. Outro tema importante será o debate sobre governança indígena Magüta, incluindo o reconhecimento e a valorização das autoridades tradicionais e a construção de um modelo de governança transfronteiriça baseado em princípios de diálogo, horizontalidade e autonomia indígena.
| Credito/Foto: La Magüta Native/Tchurucü Mepe |
Os participantes também definiram a metodologia que deverá orientar os debates durante o congresso internacional. Ficou acordado que cada tema será discutido em grupos de trabalho mistos, formados por representantes dos três países. Cada grupo contará com uma pessoa responsável pela moderação das discussões e outra encarregada do registro das reflexões e propostas apresentadas. Além disso, moderadores gerais acompanharão os trabalhos dos grupos, oferecendo apoio técnico e facilitando o diálogo entre os participantes. Ao final das discussões em grupo, as propostas serão apresentadas em sessão plenária, onde poderão ser debatidas, ajustadas e posteriormente aprovadas coletivamente. A sistematização dessas propostas deverá resultar em um documento político que expressará as decisões e encaminhamentos do congresso.
Durante a reunião também foi definida a criação de uma comissão organizadora transfronteiriça, responsável pela preparação do congresso internacional. A comissão será formada por representantes do povo Ticuna dos três países. Foram indicados para compor essa comissão: Eraldina da Costa Scarlo, representando o Brasil; Francisco Hernández Caetano, representando o Peru; e Abel Santos, representando a Colômbia.
Entre as atribuições da comissão estão a elaboração dos convites oficiais, o planejamento logístico do evento, a mobilização das comunidades e o detalhamento dos custos necessários para a realização do encontro internacional. A reunião também discutiu a lista preliminar de instituições e organizações que deverão ser convidadas a participar ou apoiar o congresso. Entre elas estão organizações indígenas regionais, instituições governamentais e entidades de cooperação.
Entre os possíveis convidados estão a FUNAI, o Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério da Cultura do Peru, a Organização Nacional Indígena da Colômbia, além de organizações indígenas regionais como a COIAB, e outras instituições. Também foram mencionadas instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil, incluindo novamente a Universidade Nacional da Colômbia, ACT Colômbia e Brasil, FIU, FUNAI e CAIS Povos Indígenas em Tabatinga, que participaram da reunião como apoiadores técnicos.
A reunião foi encerrada no mesmo dia, reafirmando o compromisso das lideranças do povo Magüta/Ticuna com a construção de uma agenda comum de fortalecimento cultural, defesa territorial e articulação política internacional. Para os participantes, o I Congresso Internacional Transfronteiriço Magüta/Ticuna representa um passo importante para fortalecer a unidade do povo Ticuna e promover formas próprias de governança indígena, respeitando os saberes ancestrais e os direitos coletivos dos povos originários.
A expectativa é que o encontro previsto para julho de 2026, na comunidade Kuchillo Cocha, no Peru, consolide um espaço permanente de diálogo e cooperação entre as comunidades Magüta/Ticuna dos três países, reforçando a autodemarcação e autodefesa do território, da cultura e da autonomia indígena na região amazônica.

Nenhum comentário
Postar um comentário